Entrevista: South Club x Vogue Korea

Entrevista da South Club para a revista Vogue Korea, edição de Julho/2017.


 

Pegando emprestada a frase que Haruki Murakami usou para descrever o músico Chet Baker, e a usando para descrever Nam Taehyun:

“A música dele é cheia do puro senso da juventude”

BORN TO BE BLUE

Na primavera passada, Nam Taehyun fez um show guerrilla numa boate em que sua cabeça quase tocava o teto. Customizando camisas velhas e gritando apaixonadamente nos microfones, aparentemente estarrecido com algo – por exemplo, como Elliot Smith* previa um futuro miserável cantando em lugares escuros e úmidos do cenário underground.

Ver Eliot Smith nos seus vinte anos faz as pessoas terem um senso de obrigatoriedade de viver sua adolescência como ele viveu. Com o passar do tempo, os sonhos perdidos e as oportunidades da juventude são agora demonstradas para nós por Nam Taehyun.

Mesmo que puséssemos a música de lado por um momento, os dois partilham das mesmas similaridades em seus espíritos de juventude, o qual pode ser percebido como “predominância temperamental da coragem sobre a timidez do apetite, da aventura sobre o amor às coisas fáceis. ” (Samuel Ullman ‘Youth’).

“Cantores idols não podem fazer shows improvisados? Eu não quero isso. Eu quero poder cantar na hora que eu quiser.”

Eu vi Nam Taehyun na praia, em Okgye Gangneung-si, Gangwon-Do. Ele olhava o mar em silêncio. Ele compartilhou que recentemente esteve em Jeju, mas não pode realmente olhar para o mar pois tinha um show numa cafeteria.

Antes de encontrar com ele, eu pesquisei um pouco sobre a razão pela qual ele tinha saído do WINNER e da YG. Eu achei artigos com manchetes como “Mesmo sabendo que seria difícil no começo, foi uma decisão que seria tomada mais cedo ou mais tarde”. Ao mesmo tempo, eu achei a carta escrita à mão, vídeos relacionados e também o reality de sobrevivência que participou em seu pré-debut, WIN: WHO IS NEXT. Naquela época, ele falou como teve que mudar a si mesmo para se encaixar no estilo da YG numa entrevista.

Mas, ao invés de especular sozinho sobre isso, decidi perguntar diretamente a ele. Inicialmente eu estava pensando em como questionar isso de uma maneira leve, mas ele mesmo abriu a conversa:

“Eu aprendi demais e é um lugar que eu ainda sou grato por ter vivido, mas, eu não gosto da lógica da imutabilidade. Algumas pessoas nos grupos lançam CDs, alguns vão para aulas de atuação, outros até mesmo trocam a YG por outras companhias. Mas, na realidade existem muitas outras possibilidades, por que não tentar? Por exemplo, por que nós só mostramos uma imagem padrão na TV? Se somos cantores, por que devemos nos importar tanto com estilo em frente das câmeras? Por que não podemos cantar numa loja de um amigo? Mesmo que eu almejasse por liberdade, eu não era capaz de experimentá-la. Claro, não podemos fazer apenas as coisas que gostamos, mas eu quero tentar – eu vou infundir liberdade na minha música. Para aqueles que a escutarem sejam capazes de agarrar essa liberdade também.”

Se a liberdade tivesse uma data de validade, possivelmente seria o fim da juventude. Como as palavras de um jovem rockeiro que quer morrer antes de envelhecer, Nam Taehyun está em seu auge e quer aproveitar sua liberdade o máximo possível.

“Todos tem sua própria lista do que fazer antes de morrer, como viajar ao redor do mundo. E ao invés de deixar isso pra depois, não é melhor perseguir isso quando se é jovem?”

Isso não é por que quando você é jovem, mesmo se você falhar, não tem nada a perder?

“Talvez eu já tenha experienciado o fundo do poço de qualquer forma e não tinha nada a perder. Deixar o lugar que estive durante um longo período, eu passei um tempo assim.”

Na música “Hug Me”, na qual é descrita sua própria história, há um trecho da letra em que diz “Eu pequei para receber uma punição dolorosa como essa? Eu também quero sorrir, mas vamos parar isso aqui e agora. Eu também estou cansado, me abrace, me abrace, me abrace.” Ele diz que Hug Me descreve como ele se sentiu durante este período difícil e como ele deixou essas emoções transparecerem com a melodia da canção.

Depois que Nam Taehyun saiu da YG, ele estabeleceu sua própria marca, a “South Buyers Club”. O nome foi um tributo ao filme “Dallas Buyers Club.” Sempre que se sente cansado, ele assiste a esse filme.

Ele diz que se inspirou muito nesse filme, Ron (interpretado por Matthew Mcconaughey) uma vez caiu em desespero no Texas e foi influenciado pelo blues e cowboys. Ele disse que também gosta de um outro filme do mesmo diretor, “Demolition”, de Jean-Marc Vallée.

O protagonista também estava sozinho.

Quando Taehyun está sozinho, ele sempre encontra algo pra aprender e passar o tempo. Tirando a prática no violão, ele também passa tempo aprendendo a usar o Photoshop, design, etc. Devido a isso, ele pegou bastante inspiração para algumas tatuagens. Num antebraço ele tatuou uma partitura. Quando ele estava aprendendo a tocar violão, ele marcou alguns pontos importantes num caderno e pediu para o tatuador fazer exatamente igual em seu braço. As palavras em seu peito são como se algo estivesse enrolado e manchado em tinta semi-seca.

É moda fazer tatuagens nesse estilo?

“Não. Por isso que eu tatuei desse jeito.”

A fonte, layout e até mesmo a textura das folhas do álbum da South Club são decididas por ele mesmo. Dessa maneira que ele produziu o primeiro álbum, não do Nam Taehyun, e sim da South Club. No dia do photoshoot, os outros membros e o Taehyun se divertiram na praia em Okgye, ele fez algumas estrelinhas, eles jogaram ping pong enquanto riam e conversavam – durante a espera para sua vez de tirar fotos. Comeram dakbokkeumtang no almoço e disseram na volta que queriam comer ramyun. No estúdio/escritório (que também é a casa de Taehyun), os membros ensaiam por três horas quase todos os dias, e então cozinham, comem e falam sobre música juntos.

Em janeiro desse ano, Nam Taehyun postou um anúncio de recrutamento em suas redes sociais, e como o esperado, a maioria dos e-mails foram de suas fãs. Todo dia ele recebia tantos e-mails que chegou ao ponto dele não conseguir ao menos abri-los pra ler.

“Na verdade, de início eu não tinha o pensamento de que deveria formar uma banda, eu só queria alguns amigos para fazer música. Mas o resultado foi que esses amigos se tornaram colegas de banda. No início eu disse a todos que eu realmente gosto de performances ao vivo. Eu persigo esse tipo de música, então seria bom se nós pudéssemos nos apresentar juntos.

A South Club possui cinco membros. Nam Taehyun, Kang Kunku na guitarra, Kim Euimyeong no baixo, Jang Wonyoung na bateria e Choi Yunhee no teclado.

Yunhee toca piano na mesma igreja que Taehyun frequenta. “Quando eu soube que o oppa (Taehyun) estava procurando por membros pra uma banda, eu rezei. ‘Se for para ser minha posição, por favor me dê essa oportunidade. Se não, nem me dê esperanças’. Por acaso, ouvi o oppa tocando Hug Me no violão, então toquei o piano junto, e achei bastante significativo. Depois disso, ele me chamou e perguntou ‘Você quer fazer parte da minha banda?’ E eu disse ‘Claro que sim!’”

O baixista Kim Euimyeong também frequenta a mesma igreja. “Eu estava numa banda com o Kunku antes, e também era DJ. De qualquer forma, eu só faço a música que eu queira. Recentemente, claro, o mais importante pra mim é a South Club.”

O guitarrista Kunku falou sobre a banda Nirvana: “Quero ser livre como a Nirvana, queremos ser a banda que mistura a personalidade de cada membro. Mesmo se nós não conseguirmos isso, no final não importa tanto assim, mas queremos experimentar coisas novas.” 

Para a South Club, a pergunta mais difícil é sobre os objetivos da banda.

A base da música da South Club é o blues. Falando nisso, foi uma música deste estilo que Taehyun tocou na praia.

“A base de quase todas as nossas músicas é o blues. Especialmente porque eu sou interessado em blues e rock, mas eu não vou ser teimoso e seguir só esse estilo. Quando você ouvir as músicas desse álbum, você irá entender. Há músicas mais intensas.”

Todos os membros da banda receberam os arquivos de Taehyun, que contêm dezenas de músicas.

“O oppa nos enviou apenas um pouco das centenas de músicas que ele escreveu. Eu não estou dizendo isso porque sou da banda, mas, elas são realmente boas.” – Yunhee

“Não tem nenhuma canção de amor nesse álbum, elas não são tão comuns? Ao invés disso, nós queremos poder expressar nossa voz. O motivo do álbum se chamar 90 é porque, por um lado todos nós nascemos depois de 1990, e por outro, lembra as pessoas do espírito da valorização da juventude e rebeldia que foi liderada pelo Nirvana nos anos 90.”

Nam Taehyun, como eles, também tem coisas que deseja dizer. Como o autor que o Taehyun gosta, Ernest Hemingway, ele prefere usar palavras simples, porém impactantes.

“Existem músicas em que eu quero criticar as pessoas que tem a mente fechada, e outras que quero descrever juventude e liberdade. Essas são coisas que quero falar.”

Na curta história “30” de Kim Aeran**, há uma passagem que diz: “se tornar mais e mais esbanjador e extravagante, perdendo a fé nas pessoas, criando expectativas dos outros, isso não é o que significa virar adulto”. Não querendo se tornar um adulto que desorientado e sem rumo, Nam Taehyun começou a fazer a música que ele queria fazer.

“Mesmo que isso soe incomum, a South Club não tem um objetivo e o que as pessoas chamam de destino. Se estivermos desconfortáveis na frente da câmera, o público também vai se sentir desconfortável, certo? Se gostarmos da música, eu acredito que quem ouvir também irá gostar.”

Para Nam Taehyun, a South Club é uma tela. Você pode livremente jogar tinta nela, desenhar, ou até mesmo rasgar no meio.

Você está com medo?

“Eu não faço musica desde sempre? Se você tirá-la de mim, eu realmente não sei o que fazer. Quando eu me canso de produzir, eu vou escutar músicas que eu não consigo compreender. Por exemplo, quando ouço músicas que não costumo ouvir, tipo heavy metal, depois de ouvir e ouvir eu posso tirar algo. E daí, quando ouço músicas que eu gosto, soam e parecem diferentes.”

Sendo capaz de aprender a partir de músicas que ele não gosta, Nam Taehyun acredita que também pode aprender muito com pessoas que ele não gosta.

“Mesmo se for alguém que eu não gosto, devem haver razões pelas quais outras pessoas gostem desse alguém.”

Na praia de Okgye, Nam Taehyun pegou sua câmera e como o fotógrafo que ele gosta, Ryan McGinley, registrou a juventude de seus amigos em fotos. Ele escreve romances, pinta e faz música. Mesmo se for um estilo que ele não goste, ainda assim irá escutar. Mesmo que ele tenha que considerar o meio de sobreviver da sua nova empresa, ele está começando a diferenciar sentimentos e razões – então ele sente que isso não importa. Todos dizem que ele parece mais animado. Não importa se falarmos em termos de música ou das outras áreas, o que importa é que ele está vivendo a vida que quer.

 

Notas de tradução:
*Elliot Smith – Cantor e compositor americano.
**Kim Aeran – Escritor coreano.


Créditos: southclub_bang
Tradução: Laila | WINNER Brazil
Não retire sem os devidos créditos.

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